Swift

Clarices, de Luciana Bollina (e também algumas palavras com a autora)


Clarice quer ser menina e ser mulher. Ela é doçura e certeza. Mas também é medo e dúvida. Tem o hábito peculiar de sempre escrever cartas pra alguém. Cartas pro seu amor. Mas quem é o seu amor, Clarice? Ninguém. É um amor anônimo e misterioso que ainda não existe, mas que consegue confortá-la ao ser seu confidente. 

Sendo uma jovem adulta, artista plástica, que vive das suas pinturas e das aulas na faculdade em que substituí uma amiga, ela não sabe muito sobre estabilidade. Mesmo assim, foi da forma mais corriqueira e banal que ela conheceu aquele que talvez fosse o dono de todas as cartas. O seu amor, o seu confidente. Poderia ser ele, o anônimo?

Escolhendo um filme na locadora, ela é abordada por um rapaz meio esquisito. Ele simplesmente começou a falar com uma estranha sobre um livro que tinha feito, e até recitou um de seus poemas. Dizia que o  autor apresentar um trabalho que ele mesmo escreveu, com as próprias mãos seria uma experiência mais única e diferenciada. Queria que Clarice lesse, e ela o levou. Ficou totalmente encantada com o livro, é verdade, porém ficou três vezes mais com o autor dele.  Eles conversaram, filosofaram, e ela se sentiu voando. Era alguém próprio para ela, alguém que dividia alguns prazeres e enriqueceria seus momentos. Devorou tudo naquele manuscrito no mesmo dia (ela me lembra alguém!) e esperou mais algum tempo pra mandar um email para Gabriel, contando que tinha achado. Sim, ela não queria parecer desesperada, ou algo do tipo. A Clarice tem várias preocupações acerca dessas coisas.

“Voando é que se percebe. E voar não é como correr. Pé ante pé, se impulsionam os músculos que fazem correr e voar sobre o chão. Não tenho asas. Só voo com o pensamento”.

Se apaixonou pelo rapaz dos poemas artesanais, e esperava muito por uma oportunidade de vê-lo novamente. Gabriel sequer tinha respondido o email ainda. Talvez estivesse sem tempo, ou não quisesse papo com ela. Quem é que sabe?

E resolveu ir até a livraria. Clarice sempre gostou de livros, mas dessa vez eles não trouxeram boas coisas pra ela. Dando uma espiada mais longe, ao reconhecer uma certa voz, ela viu Gabriel com uma mulher muito bonita. Ela brilhava, cegava, fazia Clarice quer ser ela desesperadamente. Cabelos macios, pele impecável, corpo escultural, e uma alegria no olhar. Clarice acha que os pegou num beijo. Acha que Gabriel está com a tal moça impossível de se competir. 

E não é que ela veio falar com Clarice, que estava lá, escondidinha, fingindo que não conhecia ninguém? Virgínia era muito simpática. Puxou um assunto qualquer, e conseguiu deixa pra convidar a estranha pra assistir sua peça de teatro que estava em cartaz. Poxa, e ainda é atriz? Concorrência muito desleal. 

''Alguns nascem para escrever livros, outros para lê-los e outros para sê-los.''

Clarice não gostava desses joguinhos, e muito menos de ficar nesse estado deplorável por algo que ela nem sabia se era verdade mesmo. Mas se sentia apagada, sem cor ou brilho, sem sal, sem qualquer coisa que a tornasse a sua individualidade interessante. Se sentia apenas mais uma por aí. Ficou um pouco louca. A visão da mulher perfeita, da sua rival, aparecia em todos os lugares. Nos seus sonhos, nos seus pensamentos, em tudo!

Então, o belíssimo correio traz uma carta. Uma carta de Gabriel. Que rapaz mais poético... E pensar que Clarice não acreditava nem que ele responderia. Cartas são algo muito mais sentimental e romântico que os emails frios.  Gabriel quer vê-la, e até aparece na exposição da moça. Logo naquele dia tão especial, que ela era uma dama em orgulho e vermelho. Ela se sente muito feliz em ver as coisas progredindo, mas vai precisar lidar com o grande mistério de Virgínia (perfeita demais pra ser real), Jéssica, uma aluna que a ensinará muito, e sua irmã menor Claudia que está explodindo por dentro. E pior: consigo mesma.

"Ela estava seduzida por sua verdade e seu amor, visível em sua expressão. Mas tinha um ponto de interrogação no meio da testa e uma babel de pensamentos tagarelantes em sua boca, disposta a argumentar sem saber por onde começar."

Um livro pra terminar com suspiros. E mesmo pra suspirar durante a história. Pra se apaixonar e pra refletir. Amantes da poesia, filosofia, teatro, e romance, este livro é pra vocês. Clarices me encantou com sua simplicidade complexa de 142 páginas. Confuso, não? Mas é isso que se percebe ao ler. Clarice é uma mulher de 19 anos se descobrindo. Ao mesmo tempo que é uma, é várias. Ao mesmo tempo que ama, hesita. Ao mesmo tempo que ri, complica. 

Pois o mesmo vale pra nossa linda narração, que é um misto de prosa, poesia, filosofias e belos diálogos (que apesar de poucos, são perfeitamente encaixados). O mais bonito é que o romance é muito bem trabalhado, mas não é o centro da história. O nome do livro, Clarices, tem seu significado. É sobre como uma pessoa pode ser várias. E relaxe que não estamos falando no sentido de falhas de caráter ou ocultação das reais intenções (comumente chamada de falsidade). Ser várias é ser complexo. O mundo é um circuito de complexidades, e nós também somos assim. Daí vem a individualidade do ser humano: Em ser ao mesmo tempo que uma Clarice amante, uma Clarice insegura, e uma Clarice protetora, uma divertida, outra um pouco mais triste, uma Clarice adulta e uma criança, tudo na mesma Clarice. Somos produto daquilo que vivemos, e vivemos muitas coisas diferentes. 

''Clarice é seu nome. Ela não gosta de ter só este, mas gosta dele. Procura identificar-se com tudo que pode. Quanto mais ela se identifica com as coisas do mundo, mas ela será capaz de amar estar viva.''

O romance é doce, belo, com a leveza de um brisa e a força de um furacão. Acredito que vocês vão se apaixonar pelo Gabriel, assim como eu me apaixonei! O ambiente é São Paulo, e as cenas do cotidiano da Clarice são lindas. A minha preferida foi de longe a ida do casal pra assistir a peça Discurso dos Seios. Tem uma história dentro da história, e por ela eu também me apaixonei! Eu diria que é fichinha pra Luciana, por ela ser dramaturga, mas isso não tira o mérito de jeito nenhum. Vocês percebem muito bem quando eu fico obcecada por um livro, e Clarices vai ser meu queridinho por um bom tempo. A capa é tão lindinha, e dessa vez escolher livro por capa vai dar certo sim gente! 

Falando na Luciana, ela topou uma pequena entrevista para o blog, e eu espero que vocês gostem. Pra quem ainda não leu o livro, pode perceber mais qual é a essência dele, e para quem já leu, melhor ainda: vão saber um pouco mais sobre a autora. Aliás, se quiserem visitem o site dela. E tem também o blog, onde tem textos, poesias, e crônicas escritas pela Lu!




-A Clarice é uma artista plástica. Pinturas são diferentes de entrar em cena, ou mesmo de escrever algo, ou encantar com a voz, que é o que você mais faz. Mas as artes se entendem entre si. Tem um pouco de você nela? Principalmente, ela é uma mulher com várias facetas, que está descobrindo cada uma delas em si mesma, ao mesmo tempo que quer desesperadamente conhecer seu novo amor. Alguma das facetas de Clarice tem semelhança com as suas? Você é uma das Clarices?

Tem sim! A Clarice é um pedaço de mim, de algo que fui e ainda sou, pra mim ela é a essência primeira da mulher que está deixando de ser menina para se tornar mulher. E nem sempre isso é tranquilo. Muitas vezes criamos mitos e tabus para nós mesmas, mas no fundo, tudo está dentro da gente e se transforma no que escolhermos ser no mundo. Me considero uma pessoa múltipla. Tenho algumas profissões e todas elas relacionadas a arte. Acredito que escrever um livro sobre uma artista foi natural na época. Eu estava me descobrindo como artista e ainda estou. Esse mundo é muito mágico pra mim. Sou, com certeza, uma Clarice.


-Clarices é um livro que trabalha muito com a filosofia e psicologia da protagonista. Quem é ela? O que quer se tornar? Quantas são ela? O que ela teme? Quais são seus reais limites? Todos esses questionamentos de autoconhecimento a gente vê ao longo da história, junto com o amadurecimento de Clarice. Você estudou ou leu sobre a psique? Ou trabalhou esse tema em alguma época da sua vida na prática, em algum autoconhecimento, assim como sua personagem? 

Olha Amanda, eu sou uma buscadora. Estou sempre em busca da minha essência. Leio e gosto de filosofia e psicologia, mas não sou uma estudiosa. Estudo pra mim. No intuito de entender minha existência, ser mais leve e cada vez mais comprometida com a minha arte e com o amor. Acredito que cada ser humano deve ser pleno em sua existência, buscando e se aperfeiçoando sempre para caminhar sempre melhor. É uma maneira de sobreviver, de viver em paz.


-A sua inspiração pra peça Discurso dos Seios veio de toda a sua trajetória no teatro, não é mesmo? É uma peça incomum, impactante e super poética, que deixou Gabriel ainda mais encantador. Será que essa peça pode um dia ser apresentada, na vida real? Do jeitinho que vemos acontecer no livro? Eu seria a primeira a comprar o ingresso, e torcer pra sentar na cadeira da Maria de Pau. 

Essa história da Maria de Pau minha avó me contava quando eu era criança e eu pedia para ela repetir e repetir e repetir! Eu amava o jeito que ela falava e eu conseguia imaginar perfeitamente a história. Absorvia cada detalhe e gestos da minha avó. Foi daí que surgiu a vontade de coloca-la no livro. É uma história que faz parte da minha ancestralidade de alguma forma...Daí a transformei em peça. E acho que nas histórias de nossos ancestrais há muitos segredos para serem desvendados. Acho que o mito tem um papel grandioso nas nossas vidas, o de fabular os milagres. Não pensei em transformá-la em uma peça real, ela tem sua função dentro do livro. Estou feliz assim por enquanto. Mas quem sabe?


-Agora, pra encerrar, algumas perguntas pra esclarecimentos do próprio livro. Vale contar o que quiser sobre ele, mas o que quero saber é: Quando você o escreveu, e por que? De onde vieram as ideias? O que você sentiu quando pegou o livro físico, publicado, real, nas suas mãos? Foi mais parecido com a sensação de glória dos aplausos, ou daquele frio na barriga ao subir no palco?  

O argumento do livro era, antes, um conto que escrevi quando encontrei um poeta chamado Silvio Diogo na rua. Eu não me senti atraída por ele, mas mantive contato por e-mail e nos encontramos uma vez. Não ficamos, nem nos sentimos atraídos um pelo outro, mas algo nos fazia querer conversar sobre poesia e existência. Foi aí que ele me rendeu uma história de ficção. E se eu tivesse me apaixonado por ele? Foi a partir daí que o conto surgiu e a minha Clarice também. Quando eu comecei a escrever o livro, eu estava num momento muito importante da minha vida. Tinha meus 25 anos na época e estava desesperada com a minha profissão. Querendo saber que tipo de artista eu era, qual era o meu verdadeiro talento e vocação. Estava desacreditada das pessoas e cansada de ser passada pra trás. Eu decidi que queria escrever um livro para colocar minha energia criativa em alguma coisa... Queria fazer algo que me falasse de verdade à alma. Comecei a escrever todos os dias e o livro terminou em 6 meses. A experiência de se ter um livro publicado é maravilhosa. Inexplicável. A sensação é de lançar mesmo um filho no mundo. Todos irão ler e podem ter opiniões. Aquela história agora é de todos que quiserem ler... Não só sua. Isso é aterrorizante e altamente estimulante ao mesmo tempo. Me sinto orgulhosa por ter tornado real algo que era puro fruto da minha imaginação. A sensação foi muito mais profunda quando estava escrevendo do que quando publiquei. Mas eu chorei quando vi a capa e meu nome nas páginas. Hoje a minha Clarice já tem outro nome, já viveu outras coisas, mas aquela Clarice de 19 anos existiu e eu fico feliz por te-la eternizado. Realizar é algo importante e as obras tem prazo de validade. O que queremos dizer hoje, pode mudar amanhã. Portanto, acho que devemos tentar realizar sempre nossos sonhos e para agora!


You Might Also Like

17 Comentarios