Swift

Borbolete-se com O Céu É Logo Ali, de Lilian Farias


Pense nas borboletas e em tudo que elas significam. Biologicamente, são insetos da ordem Lepidoptera classificados nas superfamílias Hesperioidea e Papilionoidea, que constituem o grupo informal Rhopalocera, fazendo do holometabolismo sua maneira de vida. O que tudo isso significaria pra nós, no simbolismo e no emocional? Toda essa metamorfose, da larva ao casulo, do casulo às asas nos diz muito sobre transformar e se libertar. Quantas cores, quantas formas, quantos perfumes poderíamos contar?

Encare o livro de Lilian como uma borboleta, assim como suas personagens (incluindo você mesmo). Sim, pois em O Céu É Logo Ali, leitor vira personagem, e personagem vira leitor. Pense no primeiro voo da borboleta que acaba de sair do tormento de seu casulo, e tem uma nova perspectiva. Ela é leve, livre, bela, e cheia de sonhos. Não é mais aquela lagarta limitada pela gravidade, que devora folhas sem parar, nem mesmo imaginando que poderia conquistar os céus. Duas mulheres, ligadas de forma proporcionalmente inversa, descobrem sua borboleta. Clarice e Dolores: a moça sem medos e a mulher reclusa.

''Não dá para morrer agora: preciso domar um cavalo; tocar piano para uma plateia lotada; viajar para o outro lado do mundo; ser entrevistada por Marília Gabriela; escrever um livro. Disseram que eu poderia ser feliz! Não dá para morrer agora: preciso catalogar todas as espécies de borboletas existentes; matar um dragão; inventar uma receita inusitada; ser dançarina; posar para fotos de família. Disseram que eu podia ser feliz! Não dá para morrer agora: preciso compor a minha música; correr em direção ao além; achar o pote de ouro do arco-íris, morar em uma casa de biscoitos; ser rainha de alguma coisa; escrever poesias. Disseram que eu podia ser feliz! Não dá para morrer agora: preciso nadar no rio; nadar no mar; quebrar o braço; correr pelada; morrer de amores; ser amada; contar histórias. Disseram que eu podia ser feliz!''

Com muita poesia e sensibilidade, vamos descobrindo pouco a pouco o que essas duas tem para nos mostrar. Clarice está na chamada flor da idade, a época em que temos a melhor ideia do mundo. Aquele momento em que a vida parece estar se encaminhando pro que realmente vai ser, mas ao mesmo tempo ainda temos aquela sensação de que não estamos realmente lá. De que podemos desistir, dar meia volta e começar tudo de novo. Mesmo assim, Clarice estava feliz demais pra pensar em mudar qualquer coisa. Tudo parecia perfeito: era uma moça com bons conhecimentos, uma família e um noivo que a amam. E nem mesmo o espelho podia culpar... Era tão linda que as pessoas ficavam impressionadas.

"O medo é um fardo pesado e jamais poderia alcançá-la. Que poderia ser uma lembrança para não ficar cega pela coragem e perder-se nas montanhas do desequilíbrio!"

Já Dolores, sem ter nenhuma dessas coisas, representa a felicidade nos mínimos detalhes. Ela, já adulta, não conhece muito bem o amor. Não é lá nenhuma beldade, apesar de os outros personagens a enxergarem com certa beleza. Financeiramente e  profissionalmente falando, Dolores também não se saiu bem pros padrões que nossos pais/avós utilizariam. Nada de "direito" ou "medicina". Dolores trabalhava em um bar, e seu amigo mais peculiar era um bêbado que tinha uma grande admiração por ela. Poucas pessoas tinham o prazer de conhecer Dolores, e de admirá-la. Ela mesma se anulava, ela mesma se escondia. Montou uma barreira tão forte e por tanto tempo em torno de si que se esqueceu de que ela estava lá.

''Será que eu fechei todas as janelas para o mundo? - murmurou Dolores. - O que está acontecendo? O que eu fiz comigo? (...)
Uma mulher não se acaba. Não entrega as cartas antes do fim do jogo. Ela tinha brasa de desejo, só não sabia onde escondeu. Agora que as águas ascenderam a paixão da vida, a festa era certa. As portas foram abertas. As verdades rasgadas e queimadas. A dança da mulher subversiva deu as caras.''

Um dia desses, tudo muda. Dolores, que estava escondida, se sente finalmente parte de algo, por ter um contato com o amor que engrandeceu o seu ser. E Clarice, por uma peça do destino, acaba perdendo tudo que lhe era caro. É que nesse mundo que conhecemos, tudo tem que ter um equilíbrio. Um Yin-yang que se revesa, com os altos e baixos de uma montanha-russa que termina apenas no momento em que vamos embora. Em qual estrada a alma das duas vai se encontrar? O que lhes dará a liberdade de que tanto precisam? Será que vão finalmente poder voar? Borboletas. Elas se tornam borboletas.

"O mundo era seu abrigo, a música a acompanhava, os anjos a confortavam, as estrelas serviam de cobertor, as nuvens de travesseiro, e a lua a velava. Pensou na morte como recomeço! Nos não encontrávamos mais tempestade, só esperança. Ergueu-se, abanou pro amigo, virou as costas e, em doce gargalhada, sentiu-se borboleta.
Eis a primeira morte de muitas."

É poesia, é amor. É uma avalanche de sentimentos e experiências que recebemos com essa obra. Não tente contar as interpretações que podem ser feitas de cada um dos seus capítulos, de cada uma de suas palavras. Ia ser o mesmo que tentar contar quantos grãos de areia uma praia tem. O que sentirá lendo será diferente do que eu senti, pois é uma conversa com cada um de nós. Você vai pensar sobre si mesmo, sobre a sua liberdade e sobre a vulnerabilidade do seu ser. É como uma dança: se deixe conduzir pelas páginas e suas belas metáforas, e se sentirá embalado pela música e pelos movimentos graciosos.

"Deduziu que todas as palavras de sua vida nunca foram desprovidas de sentimentos! Que nunca encontrou um grito sem resposta! Que o silencio também é um grito! Que todas as vezes que remou contra a maré, a maré a guiava! Que para o erro não existia justificativa, mas que todo erro era proposital a um acerto! Que a saudade doía, mas que pertencia aos bons! Que a noite é bela e profunda, e que o dia brilha para todos! Que todo suicida é louco! Que a vida é curta! Que os poetas interpretam a sabedoria divina!''

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