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Mulheres Que Não Sabem Chorar - Lilian Farias


São quatro mulheres que se amam e uma bela história. Mulheres que Não Sabem Chorar é tanto poesia quanto denúncia de abusos reais que acontecem todos os dias e são velados por um motivo ou por outro; desde estupros a roubos do ser, da identidade. Ser privada do próprio ser e se anular diariamente em prol do que é adequado é uma morte lenta e agonizante, e Lilian Farias, autora de outros livros como O Céu é Logo Ali e Desconectada, recolheu histórias de diversas mulheres de carne e osso Brasil afora com essas marcas do ódio. Elas se tornaram Olga, Marisa, Ana, e Verônica.

Este é um romance de mulheres, sem esteriótipos ou metas para cumprir. Ele só é. Sua linguagem lírica e sensível nos encanta ao apresentar o íntimo das personagens com suas explosões de sentidos e sentimentos. Marisa e Olga, com seus 50 anos, tão diferentes uma da outra, conseguem preencher alguns de seus vazios com o amor que sentem tão intensamente. A primeira, é forte, fria, armada, quem sabe até um pouco cruel. Marisa não desata em lágrimas facilmente, não sabe chorar ou enfraquecer. A meia-idade lhe trouxe o bater de asas dos filhos para longe de si, e essa foi a primeira vez em que ela realmente se sentiu vulnerável. Sua vizinha, Olga, sempre foi para ela motivo de torcer nariz. Uma louca, vagabunda, viciada, ridícula, digna não de pena, mas desprezo. E não foram raras as vezes em que Marisa fez mal à ela, atroz.

Ana tem um pai vil, perverso, doente, e criminoso. É impossível para ela manter contato com alguém tão violento, capaz de praticar as piores atrocidades com mulheres. Além desse problema com seu progenitor, ela ainda sofre com o irmão que está passando seus dias todos no hospital. 
Ana não. Ana passa esses dias na universidade sonhando com Verônica, a perfeita mulher que não poderia ter sem destruir um relacionamento. Além dessas distrações, suas sessões na psicóloga a ajudam a superar um trauma que vem do ódio e da desestruturação que uma criança jamais deveria ter que confrontar: o abuso pelo pai e a agressão contra a mãe. 

O que une essas quatro mulheres no fim? Não a violência da qual uma delas será vítima, mas a vontade de lutar e se reerguer. Olga é gentil, mas está presa ao vício do álcool e  já acostumada a ter seu corpo reivindicado como se não fosse dela em seus momentos mais frágeis. Acostumada.
Ela prometeu para sua filha que foi levada pelo câncer e para si mesma que conseguiria quebrar as barras de sua jaula, que se libertaria. Mas um dia, em uma recaída, ela foi violentada novamente. Desta vez Marisa estava lá para fazer alguma coisa, e a justiça que ela almeja conseguirá com a ajuda de Ana.

Vizinhas há 20 anos, as apaixonadas sempre se odiaram. Mas quando uma mulher sofre, a outra a compreende verdadeiramente, e não tem escolha: precisa ser também mulher e lutar pela libertação de sua semelhante. E cresceu o sentimento, que sempre esteve germinando naqueles corações costurados. Sem espaço para seus habituais preconceitos, distraídas, não conseguiram impedir que contenções e represas caíssem. Marisa lutou por Olga, que lutou para Marisa. Suas almas são antinômicas e seus momentos são atemporais.

Eu disse que Mulheres Que Não Sabem Chorar é mais que um romance homoafetivo e poesia. Vivemos um momento de confusão, em que muitos esquecem da História e da crueldade. Além de levantar com orgulho a bandeira do feminismo, são denunciados aqui atos genocidas da ditadura militar contra todas as mulheres. Sanatórios que faziam a manutenção da rebeldia (liberdade política, sexual e intelectual custavam caro) através da tortura e violência destruíram muitas vidas, famílias, sonhos e mentes. Lilian transformou esses traumas em personagens (o que só aumentou a verossimilhança), e sua denúncia é real. A ditadura é um retrocesso e o pináculo da opressão, mas a violência predomina mesmo em tempos ditos democráticos e pacatos. Uma mulher não consegue andar na rua sem temer o estupro e o assédio. Não consegue deixar de se sentir ansiosa ao estar em algum lugar sozinha com um homem. Mesmo com seus parceiros ainda há o risco da violência quando explode a cólera masculina. Ainda não vivemos o mundo seguro e ideal, e é preciso ter consciência disso, se inteirar na luta.

É possível espremer vários significados da obra. Sororidade. Integração. União. Empoderamento. Mulheres que aprendem a chorar juntas, sem deixar de lutar. Suas lágrimas são força, sua ligação é força, assim como o amor. O amor foi difícil, foi preciso entrega e desconstrução. O quão complexo é o coração humano? Não é simples para uma mulher de 50 anos, criada na tradicionalidade, acostumada com o amor por homens  se ver de repente arrebatada por uma igual, que pouco tempo atrás considerava totalmente inferior. Marisa aprende com Olga a ser alguém melhor enquanto a salva de suas fraquezas.

Cada capítulo possui um nome de flor, e ao final há um dicionário com seu significado vitoriano. Seja em homenagem a Marisa, que tirava alegria das flores, ou a todas as mulheres, que merecem sua beleza e harmonia, foi sensível e belo. O livro é um ótimo tributo à literatura LGBT, que infelizmente carece de visibilidade, credibilidade, e títulos. De 100 romances heteroafetivos, quantos homo temos? E quantos livres de esteriótipos e pudor? Personagens que amam com mais de 50 anos é algo perto de inédito. Para o mundo, parece que o amor é privilégio da juventude. Mas não. O amor deve ser um dádiva da humanidade, sentido independente de idade, gênero, cor, credo. Lilian surpreende por buscar representar o que a sociedade tenta deixar sempre debaixo do tapete, como se não passasse de sujeira. Mulheres Que Não Sabem Chorar cativa por compreender a verdade do cerne. Há muito mais em nós além do externo.

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